Escrever é uma arte

Posted on July 1, 2008, Por Igor


Algumas pessoas já me reportaram que têm certa dificuldade de escrever e buscam soluções para esse problema que, convenhamos, acaba com qualquer um em uma segunda fase.

Pessoalmente, não vejo muita utilidade naqueles manuais de redação, no melhor estilo Kaspary, de tal sorte que nunca os recomendo.

Assim penso porque, na verdade, a língua é muito mais que um apanhado de regras. A linguagem é a forma como o ser humano raciocina, a forma como ele estrutura seus pensamentos e idéias, ao ponto de alguns alegarem que a qualidade de nossas idéias e pensamentos só pode ser tão boa quanto a qualidade de nossa linguagem, e nem um pouco a mais.

Dessa forma, creio que ler um conjunto de regrinhas e macetes simplesmente não vai melhorar a escrita de ninguém. Seria o mesmo que melhorar a habilidade à direção através do aprofundado estudo do CTB. Não cola, certo?

Qual a minha sugestão então? SImples: leia mais. Melhor que isso: leia coisas fora do ramo jurídico. Isso porque a leitura de material do Direito acaba, inexoravelmente, condicionada à absorção de conceitos, o que já é difícil por si só, e tira completamente o foco do leitor da forma do texto. O estudante deixa, na prática, de observar a fluência do texto, o modo de interligar pensamentos e argumentos, a riqueza do vocabulário, enfim, deixa de ver o texto como um fim em si mesmo.

Abastecer a prateleira de bons autores, como Conn Iggulden, Cláudio Moreno, Érico Veríssimo, Bernard Cornwell e tantos outros (sugestões?), e, claro, dedicar um pouco de tempo todo dia para eles, não só torna a pessoa mais culta, como também mais articulada. E é exatamente essa a habilidade de que tanto precisamos (e não só para concursos).

Aliás, o mais interessante nesse processo é que a pessoa acaba aprendendo a apreciar a escrita como uma arte, o que, no meu caso, me fez gostar ainda mais de escritores que trabalham com a forma do texto, que utilizam recursos de metalinguagem, que quebram a quarta parede (como um dos exemplos máximos desses gênios eu cito Neil Gaiman, um dos maiores contadores de histórias que conheço - para ter uma idéia, nesta obra há uma passagem em que uma história é contada dentro de uma história, que é contada dentro de uma história, que é contada dentro da história… puro deleite delírio).

Digressões à parte, o motivo deste artigo, além de expor minha idéia acerca de como alcançar uma boa escrita (e, pessoalmente, apenas estou nos primeiros passos disso), é recomendar o livro “A arte de escrever“, do filósofo alemão Schopenhauer.

Já tinha lido O Livre Arbítrio desse mesmo autor e, curioso com o título, acabei adquirindo “A arte de escrever” semana passada.

Antes de falar do livro, deixem-me discorrer um pouco sobre o Schopenhauer. Sabem aquele tio mais velhinho, de cara com tudo e com todos, e que não tem mais absolutamente nenhuma papa na língua? É o próprio. Schopenhauer é uma metralhadora giratória, de uma objetividade absurda… tão absurda que chega a chamar Hegel de “desperdiçador de tinta”. Sério. Enfim, chega a ser divertido ler e imaginar o sujeito falando. Me lembra do finado George Carlin (sabendo inglês, vale o clique).

A arte de escrever, antes de tudo, não é um manual de redação. É, isso, sim, uma sublime reflexão sobre o que faz de um texto ruim ou bom. Analisa, com uma precisão incrível, os elementos que desmascaram autores que não passam de “copiadores de idéias”, e, para o leitor atento, aponta os caminhos pelos quais a escrita chega ao cérebro do leitor, e como o escritor pode facilitar (ou dificultar) esse processo.

Demonstra, por A mais B, que mais vale um pouquinho de pensamento próprio do que centenas de conceitos copiados/absorvidos de terceiros. Eleva a língua a um patamar que não tinha visto em nenhum outro autor, identificando-a com o próprio pensamento do ser humano (ao ponto de falar que qualquer tradução é necessariamente ruim, porque não reflete o raciocínio do autor, que só pode ser reproduzido em sua língua materna).

Enfim, é uma obra que vale a pena ser lida, na medida em que nos faz encarar de outra forma a linguagem, a leitura, a escrita e o raciocínio.

Definitivamente, Igor recomenda (e custa só dez reais).

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Comments

11 Responses to “Escrever é uma arte”

  1. José on July 1st, 2008 1:21 pm

    Excelente texto, intocável na essência.

    Eu apenas acrescentaria como sugestão o velho Guimarães Rosa.

    Grande abraço.

  2. Gustavo on July 1st, 2008 6:28 pm

    Linda postagem, parabéns!
    Arruma um selo, quero colocar um link pro seu blog no meu!

  3. Eugenia on July 1st, 2008 7:51 pm

    Concordo totalmente!
    As pessoas q escrevem bem - em qq ofício - são as q lêem livros não-técnicos.
    Apóio a dica do José (Guimarães Rosa) e acresço Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu e Machado de Assis.
    Abração!

  4. Beleza de Ser on July 2nd, 2008 1:40 am

    Apoiado. Eu diria que para saber escrever tem que saber ler! Quanto “A arte de escrever”: é fantástico, real e sempre verdade. Schopenhauer desperta uma “raiva” que faz pensar, entende?

  5. Ricardo Faria on July 2nd, 2008 12:50 pm

    O Blog do Igor está imperdível.
    Fantástico!

  6. Érika on July 2nd, 2008 1:58 pm

    Bravo,Igor! Vejo que você mesmo anda seguindo seus conselhos sobre como escrever bem, pois seu texto está excelente!
    Eu sempre tive uma paixão especial por literatura(tanto que até tentei conciliá-la com o direito, tentando fazer o curso de Letras, o que só consegui por 2 anos), no entanto, fico triste em perceber que, durante essa luta de estudar para concurso, ando negligeciando minhas leituras “extracurriculares”.
    De toda forma, já que quase todos deixaram sugestões: José Saramago é essencial.

    um abraço e, mais uma vez, parabéns pelo texto.

  7. Alice on July 3rd, 2008 7:53 pm

    Ótimo post, menino-prodígio! Schopenhauer foi mesmo um ótimo mestre para vc!!!

    Aproveito q o tema é sobre o velhinho zangado (meu ídolo!!!) e recomendo o ótimo “Como vencer um debate sem ter razão”. Fininho, deve custar uns 10 pilas (mais barato q uma McOferta!), fácil de ler. Deveria ser obrigatório.

    Schopenhauer mostra os estratagemas (e os antídotos) usados para se vencer (ou não perder) o debate quando se tem razão, ou não.

    É verdade que o título parece meio anti-ético. Afinal, diria a nossa consciência, só deveríamos iniciar o debate quando temos razão e estamos convencidos disso. Mas quantas vezes vc estava certo e foi vencido?

    Assim, o livro é muito útil para que vc não se deixe vencer qdo tem razão (no meu caso, quase sempre… :)), conhecendo as possíveis estratégias do adversário contra o seu discurso.

    Lembre-se que na nossa área, onde não há certezas matemáticas, muitas vezes quem tem a razão não leva o direito… Ou seja, mais eficaz que ter razão é saber usá-la em seu favor!

    Abraços!

  8. Alice on July 3rd, 2008 7:59 pm

    Ah, claro… Eu, leitora inveterada, tenho o dever moral de recomendar uma pérola na difícil arte da escrita: Sérgio Buarque de Holanda (sim, o pai do Chico, o cantor). Quem ler a clássica obra-prima “Raízes do Brasil”, além de aprender a base da formação do Brasil, vai ver que maravilha é ler um estilo culto, preciso e rebuscado, sem ser pedante. Realmente, uma jóia rara!

  9. Alex on July 4th, 2008 1:43 am

    Eu concordo com a Alice sobre a leitura de Raízes do Brasil e recomendo também O Povo Brasileiro (Darcy Ribeiro) Casa Grande e Senzala (Gilberto Freyre) e A Formação do Brasil Conteporâneo (Caio Prado Junior)e outros grandes autores nacionais que darão uma base aos concurseiros aqui presentes desse Brasilzão!

  10. A gente se diverte como consegue… : Blog do Igor on July 5th, 2008 12:38 am

    [...] que fizerem os comentários mais espirituosos/engraçados/interessantes vão levar uma cópia d’A arte de escrever. A escolha dos últimos será feita pela Alice, no dia 12/07. Valem os comentários enviados até [...]

  11. Resultado da promoção (finalmente)! : Blog do Igor on August 18th, 2008 2:11 am

    [...] aos ganhadores do livro “A arte de escrever“, a Alice escolheu a Daniela, o João Schulte e a Joana (não sei por qual dos dois [...]

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